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domingo, 15 de dezembro de 2013

O Amor nos Tempos do Piercing

piercing
O atípico dia de quase verão anda pela metade. O frio intenso no mês de novembro, à ela, reforça a sensação de descompasso.
 
Chega ao colégio para buscar seu filho. Equivocara-se. Não é quarta-feira como ela acredita. Já é o dia seguinte. Na quinta, ele tem uma aula a mais. Há que esperar por cinquenta minutos. Decide tornar a espera agradável. Estaciona o carro e entra no Café da esquina para tomar um chocolate quente. 
 
Apenas uma mesa está ocupada por um grupo de alunos que cabulam a mesma sexta aula. Já os conhecia de vista. Duas meninas e dois meninos na casa dos quinze, dezesseis anos, ela deduz. É a faixa etária dos componentes dessa classe.
Senta-se à mesa ao lado. Diverte-se imaginando essas criaturas como filhos seus. Como seriam, questiona com seus pensamentos?
 
- Pô cara, qual é essa de amor?. Amor não existe. É um truque sujo da natureza para a perpetuação da espécie, já dizia o rei do mau-humor, Schopenhauer, antes de meu tataravô ter nascido. Diz em tom definitivo o menino que lembra o Di Caprio. O outro, com cara de Harry Potter sem os óculos, piercing atravessando a sobrancelha esquerda, expressa ceticismo. Entretanto, não contesta.
 
Amor?...Coisa de gente mala. Não conhece a teoria da assistência mútua? Indaga a menina minhonzinha, usando calça de cintura um palmo abaixo e casaquinho um palmo acima do umbigo perfurado por um piercing com pingente de brilhante. A outra garota, cabelos longos e avermelhados, olhar evasivo, está alheia à conversa. Seu mundo vai e vem na sequência das bolas do chiclete que fabrica e estoura.
 
Diante dos olhares interrogativos dos meninos ela explica com ares de palestrante. - E assim: o homem procura poder. A mulher procura dinheiro. Pra que que o homem quer poder? - Pra ganhar a mulher e fazer sexo com ela. A mulher procura um homem com poder e dinheiro pra que? - Pra fazer sexo, pegar o dinheiro dele, ficar fazendo ginástica, compras, ir no cabeleireiro, ficar gostosona e procurar outro homem com mais dinheiro...Ah!, e o homem fica muito feliz porque ele tem dinheiro e um carrão pra se achar com as mulheres. Não entenderam? Pergunta desafiadora e, sem esperar resposta, continua decidida em seu pressuposto filosófico.
Vou explicar de um jeito que entendam: Lembram da aula de Biologia sobre líquens? Então, é o mesmo princípio: Os fungos fornecem nutrientes para as algas. As algas fornecem água para os fungos para que eles não se desidratem e morram. Eles se ajuntam e formam os líquens pela teoria da assistência mútua.
 
Ela remete-se aos seus quinze anos. Não se lembra da matéria de Biologia naquele tempo. O que vem à sua memória são as aulas de Literatura. Shakespeare. Romeu e Julieta.
 
Seu chocolate vai esfriar... A traz de volta a fala calma do garçon. É. Vai esfriar. Ela responde. E agradece. Deixo aqui o dinheiro. Fica com o troco.
 
Ela deixa o Café e vai esperar por seu filho no portão. Tem urgência em perguntar-lhe o que ele pensa sobre amor.


Por Maria Balé










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