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domingo, 12 de janeiro de 2014

O Homem que Controlava

o homem...
 
Por Maria Balé

 A ameaça de chuva forte espanta os poucos banhistas no fim do feriado. Praia deserta, mar agitado. 
Sua imagem, turva como as águas, vem à memória na intermitência do som molhado.
Órfão de descendência, não teve filhos. Desprovido do imaginário, nunca sorria. Sua crença: o certo e o errado, o preto e o branco. Lógica binária. Sem curvas, só reta. A vida devotada à métrica.

Uma rima de si mesmo.

A camisa engomada enfiada com capricho na calça de vinco marcado dispensava o uso do paletó obsoleto que, austero, descansava na chapeleira atrás da porta.
Subia as escadas do escritório sempre do mesmo lado, agarrado ao corrimão. Sua rotina não comportava escorregões ou qualquer tropeço. Um tombo? Nem pensar; mancharia a sua biografia imaculada.
A ética de regulamentos era profilaxia, proteção contra a crítica.
Dormia antes das dez da noite, despertava antes das cinco da matina. Tudo vai bem quando se dorme bem. um de seus lemas repetidos como reza, ao longo do dia. Ia-se às dezessete horas e trinta minutos. Exatos.

Foi mal daquela vez. Chegara no horário de todas as manhãs de todos os anos, meses e dias, às sete horas e doze minutos. Exatos.
Usava sapatos de pares diferentes. Um, preto, e o outro, cinza grafite. Diferença quase imperceptível.
As pupilas retraídas, a falta de concentração e as profundas olheiras escuras denunciavam a noite insone.
Vestira-se aos trancos, justificaram os funcionários na repartição. Condescendência. Piedade, talvez. E nada foi dito. Um riso clandestino aqui, outro ali. Sem contratempos.

Almoçava invariavelmente ao meio-dia e dois minutos. A fração de hora, mais que traço de ranzinza, lhe afirmava a identidade.
O café, servido após o almoço, às treze horas menos quinze – assim era sua forma de dizer doze horas e quarenta e cinco minutos –, era bem quente, para que ele esperasse o tempo exato, marcado mentalmente, e o tomasse quase morno. Se o serviam já na tíbia temperatura, jogava fora. Ritualístico. Tudo em controle absoluto.

Havia quem o admirasse, é certo.

Suas calças, fora de moda, eram confeccionadas pelo mesmo alfaiate, no mesmo molde de há anos, nas cores bege escuro e marrom claro.
Seu peso e suas medidas eram conferidos em planilhas, razão pela qual encomendava suas roupas por telefone. E as recebia via malote. Caíam como luvas, o que lhe causava uma alegria constipada.
Precavido, após um mal-estar passageiro, considerou a possibilidade de vir a falecer um dia. Providenciou tudo. Comprou sua parte no latifúndio dos pés juntos e fez seguro para o serviço funerário. Não deixaria dívidas para sua senhora, a Sombra, sempre à sua espera.
Imagina, morrer sem planejamento ou disciplina? Uma desonra para alguém tão alinhado.

Bodas de prata. Viagem de navio para marcar a data. Desvario com causa justa.
Enfim, a noite memorável. A caminho do baile de gala, seus sapatos, cuidadosamente engraxados, o fizeram escorregar no piso de madeira, molhado pela água da marola. Bateu com a cabeça no beiral do convés. Seu corpo desapareceu no breu da hora. Jamais foi encontrado.

O seguro e o terreno no cemitério são da viúva. Justo. Justíssimo.
O mundo gira, as águas de Heráclito rolam. A fila anda. Em sua cama, outro consorte. E saciada, se diverte a morte.
 
Maria Balé é fotógrafa e produtora de texto publicitário, pós-graduada em Comunicação Corporativa pela PUC de São Paulo.
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