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domingo, 5 de janeiro de 2014

Bananas, Van Gogh e outras histórias

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(obra Na Margem de Lá, de Vincent Van Gogh)

No livro O Artista Vai à Feira - que ainda não foi escrito - a autora, Marilena Montanari, conta sobre o dia em que seu filho, ainda criança, foi à feira para comprar uma dúzia de bananas. Encantado com a exuberância do cacho carregado com as coloridas frutas gordinhas, comprou-o inteiro e arrastou como pode o pesado fardo até a sua casa. Explicando-se, argumentou que comprou tudo porque não queria ver aquela obra de arte destruída. 
Vincent Van Gogh, o atormentado gênio holandês, ao responder sobre a gênese de sua criação, disse que as suas, hoje, valiosíssimas pinturas nasciam do que ele qualificava como jorros espermáticos. A imagem é sublime, no entanto, penso, não se aplica ao ofício literário. Um livro é como um filho que, embora já concebido, não nasce sem a gestação. O livro da Marilena, em sua condição 'intra-uterina', eu já considero uma iguaria.

Pra mim, a comida, em essência, é uma questão canônica. E é por isso que a história do menino que em sua ingenuidade compra um cacho inteiro de bananas para salvá-lo da destruição deixa-me em estado de encantamento. 
Nas feiras livres ou lojas especializadas das muitas que existem na cidade, é interessante observar como as pessoas se relacionam com o produto que procuram. Há pessoas cuja maneira de escolher frutas ou legumes lança-me a frugais inferências sobre a personalidade delas. Algumas são hostis. Apertam, machucam e jogam os preteridos de lado, sem o menor cuidado. Essas, eu jamais elegeria até mesmo para pedir uma informação. Causam-me algo de assustador. Com outras, eu arriscaria uma conversa amena.

Enzo, amigo de longa data, conheci em frente a uma gôndola cheia de mangas. O fotógrafo, italiano de nascimento, é outro exemplar da espécie que se apaixona por uma fruta. Nesse caso, a manga ou Mangífera. Eloquente, o rapaz discorre sobre a estética, suas propriedades curativas, seu poder de purificar o sangue, os matizes e a suculência da exótica fruta que, originária de Goa, Índia, me contou ele, deixa-se superar pela qualidade dos pomares brasileiros. Minha porção contemplativa entrega-se às cores, odores e sabores dos vegetais que, em se plantando, dão safras generosas nos solos da nossa Tropicália. Sem contar os que só existem na nossa terra, como a jabuticaba, nativa da Mata Atlântica, são iguarias patrióticas.
A obra de arte objeto das minhas considerações desnecessárias é um prosaico fruto do cajueiro que se destaca em meio a tantos outros no cesto gigante. Nacional por excelência, é a segunda fruta mais plantada no país, perdendo, apenas, para a laranja. Alguém ai já se deteve diante a beleza festiva de um caju?Seus tons que vão do amarelo ao laranja, os preferidos de Van Gogh, inspirariam maravilhas na paleta do pintor, imagino. O caju, a despeito da fragilidade da sua polpa, aguerrido, sustenta a dura castanha que nele se hospeda e sem ele não existiria. E, por mais delicado que seja, garante-se imperial sobre sua parasita. E a castanha, especiaria universalmente apreciada, há que se render. Submissa; ela é castanha-de-caju e não o caju-de-castanha. Subversão metafórica, diria Enzo, já sei.
A mulher se aproxima. Os cajus estão lá, cuidadosamente acomodados, à espera de alguém que os eleja. Dá-se início ao ataque. Ela, sem dó nem piedade, dá início à truculenta seleção. Minha mente criativa já começa a ouvir os acordes da música do filme O Tubarão, do Spielberg. E a célebre sinfonia de Psicose, de Hitchcock . Adianto-me em socorro à minha obra de arte. E, como o menino das bananas, compro e levo para casa a delicada fruta amarelácea-de-polpa-macia-que-sustenta-uma-castanha-dura. Ufa! Foi por pouco!

Bananas, Van Gogh, caju. Ah, eu ia me esquecendo. Eu não como caju, não suporto o gosto, mas isso é outra história.


Por Maria Balé
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